Sobre Insegurança

julho 22, 2015 at 5:02 pm (aleatorias)

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Acho que o tema de insegurança é bem debatido, todo mundo tem sua cota de insegurança aqui e ali e vem das diversas origens, não quero abordar isso. Também acho que é bem dito como ofensas, apelidos e piadas mal colocada [que nunca são só piadas] também nos atingem despertando essas inseguranças.

Eu queria falar daquilo que a gente quase nunca percebe ou se permite assumir que nos atinge. Aquilo que está nas entrelinhas, que é o nosso cérebro que juntas os pontos e faz com que duvidemos de nos mesmos e nossa capacidade.

Há muito tempo atrás eu gostava desse garoto, tudo caminhava de forma okay até que não caminhou mais, ele se envolveu com outra e um dia eu perguntei o por quê e recebi como resposta um “ela me dá status entre meus amigos”. Isso me atingiu, não no sentido catfight de colocar mulheres contra mulheres. Era o teor implícito no discurso dele, eu não dava status, eu representava menos. Eu ficava tentando achar a razão por traz disso e minha mente sempre ia para fato de que ela era magra e eu não, ela era branca e eu não. E bem, hello darkness, my oldest friend.

O tempo passou, eu superei essa rejeição e no geral entrei em uma boa relação comigo mesma e todas as minhas características, incluindo minha negritude e o fato de não ser magra. E ainda assim, cada vez que eu encontro com ele aquela insegurança de “eu não sou capaz de dar status a ele” volta, entendam que eu sei que minha função como mulher e ser humano não é dar status a ninguém, objetivamente eu sou orgulhosa das penas que tenho e estou bem com o volume que minha barriga apresenta, nem mesmo gosto dele, eu encontrei uma garota incrível de quem gosto bastante e que acredito também gostar de mim. E mesmo assim é só olhar pra ele e toda aquela insegurança de anos atrás me atinge quase tão intensamente quanto antes.

Eu constantemente duvido da minha capacidade como profissional. Acho meus textos absurdamente mal escritos tanto em técnica quanto ortografia e acredito que minha dislexia não passa de uma desculpa que uso para minha incompetência. Não importa se eu tenho problemas com escrita e troca de letras e engolir palavras desde os 6 anos quando aprendi a escrever. Acho que minha visão fotográfica é rasa e amadora, que tenho muito mais sorte do que real talento. Esses são pequenos problemas que estou trabalhando na terapia, mas até lá eu sou carente de elogios, de reconhecimento.

Se já é difícil lidar com a falta disso, de ver meu nome ao lado de uma imagem que eu realizei, ver outra pessoa assumindo a minha função é devastador. Minha mente automaticamente interpreta que eu sou tão incompetente aos olhos dos outros que nem mesmo vale a pena tentar explicar o que querem de mim, pois eu não serei capaz de fazer.

Eu queria muito não ser atingida assim pelas ações dos outros, especialmente em um mundo onde a assustadora maioria acha que tá tudo bem fazer algo se a pessoa não teve a intenção deliberada de magoar o outro, independente se o outro acabou ou não magoado. Eu racionalmente sei que as pessoas não tem a intenção de me fazer sentir insegurança como eu me sinto, eu apenas não tenho controle. Acaba que eu fico engolindo essas micro agressões que me soam macro e gerando mais tema para sessões de terapia futuras.

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Livros 2015: Hibisco Roxo

julho 20, 2015 at 5:10 pm (livros) (, , )

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Eu queria ler alguma obra da Chimamanda já fazia algum tempo, já havia visto o discurso dela antes mesmo da Beyonce ter utilizado em Flawless. Acontece que como tudo na vida, fiquei protelando ir atrás de algum livro dela, até que motivada por um projeto de alguém especial fui atrás de Hibisco Roxo para ler.

Hibisco era meu livro de rua, normalmente eu escolho livros leves, quase casuais ou curtos que eu posso ler poucas páginas aqui e ali enquanto espero um ônibus ou o médico me chamar para consulta. No entanto, Hibisco não é esse tipo de livro, ele é bem intenso e carregado, foi bom eu lê-lo aos poucos assim por que durante quase metade do livro ele me causava um desconforto enorme.

A história é narrada por Kambili, uma garota adolescente nigeriana, ela possui um pai exageradamente católico e que é extremamente abusivo. É preciso entender que a Nigéria passava por um período político muito dramático na época que o livro se passa e que antes disso houve uma invasão de missionários católicos que fizeram uma imposição extremamente racista da religião no país. Essa invasão e imposição reflete muito no comportamento de Eugene, o pai de Kambili.

O que aconteceu na Nigéria é muito similar com o que aconteceu no Brasil com a vinda dos jesuítas. De apagamento das religiões indígenas ou de tronco africano e o catecismo forçado em índios e negros. Essa mesma realidade também ocorreu em diversos países africanos e é carregada de racismo.

Todo comportamento de Eugene é voltado para agradar o homem branco, pra se tornar o mais similar possível aos brancos. Ele tem um repudio de tudo que lembre as tradições e natureza negra do povo nigeriano. Isso se torna algo quase obsessivo e associado com diversos outros fatores os quais não quero me alongar aqui analisando agora geram esse comportamento abusivo dele para com a família.

Como Kambili é uma pessoa muito nova e que nasceu e cresceu nesse ambiente carregado de abuso ela não tem a capacidade de perceber o quão errado era tudo aquilo, pois para ela desde sempre aquilo era a normalidade, como tudo era desde sempre.

O ponto de virada é quando ela vai para a cidade da tia Efeoma com o irmão. A tia é uma professora universitária, com uma visão mais feminista do mundo, que cria os três filhos de uma forma completamente diferente do irmão, que tem uma vivencia bem diferente do catolicismo e de religiões. Tudo isso começa a modificar Kambili e se intensifica mais ainda quando ela conhece Padre Amadi.

O livro é extremamente rico, intenso e até mesmo doloroso, mas simultaneamente prazeroso. Para mim foi algo muito importante de se ler, pois eu vi muito da negritude sendo representada, muitos pontos bom e ruins que reconheci a mim, a minha família não apenas na concepção de pai, mãe e irmão, mas de avós, primos, tios, de historias que eu ouvia e de comportamentos. Como mulher negra é muito difícil eu me encontrar dentro de uma obra literária, obvio que mesmo nesse caso eu não tenho a mesma realidade que Kambili ou Amaka, eu sou uma mulher negra de classe media no Brasil. Porém eu consigo ver muito mais de mim e da minha realidade nelas do que eu via na maioria das protagonistas brancas de algum livro YA, especialmente pra mim como autora, afinal quero ser também uma negra que escreve sobre negros e perceber que eu não preciso adequar a minha escrita, vivência ou meus personagens para a compreensão branca. Eu queria se capaz de entregar uma copia de Hibisco Roxo para todos, especialmente os radicais religiosos, pois acredito que esse seja um livro que o mundo precisa ler.

Agora preciso falar sobre um ponto que me incomodou no livro. Esse ponto só foi percebido por mim por que sou uma mulher negra e por que venho lendo muito sobre o tema, a chamada solidão da mulher negra. Por muito tempo isso não foi debatido ou trazido à tona e só agora tem surgido pra mim, como é visto como natural a mulher negra ser solteira ou sozinha. Repense todas as vezes que você viu mulheres negras serem retratadas na mídia, é comum elas serem mães solteiras, em produções tens serem as amigas que não tem relacionamento fixo, isso vem de diversos fatores que talvez seja melhor enumera-los em uma postagem só pra isso. Pense nas amigas negras que você conhecem e quantas delas tem bons históricos de relacionamento.

No livro essa solidão está presente também, não por outro motivo, mas por que essa é a realidade que Chimamanda conhece e vive. Não estou dizendo que foi errado ela retratar isso, mas acho que devemos começar a pensar no que causa isso. Sinto que é um debate que precisamos trazer .

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Filmes 2015 nº 11/12/13/14/15

julho 14, 2015 at 8:05 pm (filmes)

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Eu preciso parar de acumular as coisas que eu assisto/leio pra comentar aqui, mas não vi ser agora que vou começar a fazer isso. Parte desses filmes eu realmente vi quando eu tirei um dia inteiro pra ver filme. Vi uns quatro de uma vez.

E ainda tem outros que eu vi e não vou falar aqui e por outros quero que vocês saibam que foi Avengers – Era de Ultron, eu realmente estou protelando escrever sobre esse filme por que quero rever de forma mais sóbria, sem aquela empolgação de fã da Marvel que sai do cinema achando que tudo foi incrível e depois começa a ver um mundo de defeitos. Mas isso não vem ao caso agora, vamos aos filmes que eu vi e vou falar.

 

Teen Beach Movie

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Sim, é um filme do Disney Channel, melhor é um filme musical do Disney Channel. Eles tentaram fazer o new High School Musical e como uma pessoa que viu todos os 3 filmes incansavelmente, incluindo o terceiro duas vezes no cinema, esse filme é incrível.

A protagonista é a Maia Mitchell de The Fosters e eu toparia vê-la andando numa praia por 3 horas e ainda acharia tudo sensacional. O filme brinca com os musicais antigos, mais especificamente com West Side Story apontando como muito do que era feito nesse filme não fazia o menor sentido. E existe um pequeno texto feminista ali no roteiro de mostrar que meninas não estão reduzidas a esperar que os outros decidam tudo por elas, se você gosta do boy vai lá e toma iniciativa, quer aprender a surfar? Vai lá surfa gata. Você pode, você passa, não pera… Isso é o slogan de outra coisa da minha adolescência. O importante é que vocês pegaram a ideia e eu achei um filme divertidinho e bom pro público alvo do Disney Channel.

 

Jovem Aloucada

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Esse é um filme Chileno que é baseado n vida real de Daniela, vai mostrar um período da adolescência dessa menina que é sexualmente liberta apesar da família extremamente conservadora. O filme tem uma linguagem jovem e rápida com direito a referencia a Sailor Moon, mas como o roteiro foi escrito através do blog que é uma narrativa pessoal da autora ele acaba tendo alguns pontos que podem gerar interpretações problemáticas.

A protagonista é bi e durante boa parte do filme namora um cara e uma guria escondido, já existe tanto o mito de que bissexuais não são confiáveis e que vão trair que eu consigo ouvir muita gente falando “Viu esse filme, eu disse que não dá pra confiar em mina bi”. Além disso, a autora hoje em dia diz que sua fase bi da adolescência foi isso uma fase ela é uma full lesbica o que gera outro mundo de bifobia.

Tomboy

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Filme suíço, extremamente adorável que trabalha bem essa questão de gênero. Protagonizando o filme temos uma criança de 10 anos que é afab, ou seja, foi designada menina ao nascimento, no entanto é mostrado que a criança se identifica como menino. Tanto que ao se mudar para essa nova vizinhança acaba usando a oportunidade pra se apresentar como Mikael e não como Laure. É uma historia muito tocante, que tem momentos tensos como a não aceitação dos amigos que são outras crianças de 10 anos e já reproduzem uma transfobia escrota, tem a não aceitação da mãe que obriga a criança a se vestir com vestidos e ir pedir desculpa, se apresentando como Laure numa forma de punição extremamente dolorosa, mas o final mesmo, o ultimo minuto do filme dá uma esperança de que as coisas podem acabar bem pra Mikael eventualmente.

 

Anatomy of a Love Seen

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Isso é uma fanfic que foi filmada. Simples assim, alguém do tumblr escreveu esse roteiro e foi filmado. E como tal traz algumas clássicas falhas de fanfic de como essa historia começou? Por que eu deveria me importa com isso? Sério metade da historia foi perdida.

Little Birds

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Um desses filmes indie, alternativos que começam do nada e meio que terminando do nada indo para lugar nenhum. Eu adoro filme assim, que pega um retalho, um momento da vida dos personagens e depois acaba deixando claro que a vida dessas pessoas ainda vai seguir do seu jeito e é isso.

Em muitos momentos esse é um filme bem cru e doloroso como na cena final onde uma das protagonistas é quase estuprada e a outra chega e mata o estuprador, aqui vale a nota que foi posto subentendido que a outra menina é apaixonada pela primeira só não faz nada sobre isso. Mas tirando esse e outros momentos bem espinhosos, o filme é gostoso de se ver, o filme aborda temas bem pesados, mas de forma tão indireta o tempo inteiro que você precisa interpretar tudo nele pra não ficar parecendo que é um grande filme sobre nada. Eu gostei, tava no clima pra ver um filme assim, mas talvez num outro dia e num outro humor eu teria odiado profundamente.

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