Sobre Rótulo

outubro 28, 2011 at 5:43 am (aleatorias)

Todo mundo tem a sua historia, seus medos e suas certezas. Eu não sou diferente de ninguém, mas ao mesmo tempo sou bem diferente. É complicado até mesmo para eu entender como tudo aconteceu.

Sempre tive mais amigos gays do que heteros. E isso é desde sempre, sexualidade nunca foi um problema pra mim, sempre encarei tudo com normalidade. Ser gay ou hetero para mim tem a mesma importância que gostar de azul ou vermelho. Não fazia diferença, meus pais adoravam meus amigos. Meus amigos vinham na minha casa com os namorados e minhas amigas com as namoradas, não importava sexo ou sexualidade, todos dormiam comigo no meu quarto, na minha cama, a portas fechadas. Meus pais sempre foram os mais liberais do planeta e sempre se orgulharam da minha mente aberta.

Por volta dos 15 anos começaram as perguntas. “Minha filha, você é lésbica?” e eu respondia com a mais pura sinceridade, “Não mãe, não sou!”. O tempo passava, “Mãe eu continuo gostando de homem, não mudou nada”. “Mãe ele é meu namorado e é um menino.”.

E eu não estava mentindo, gostava de garotos, na verdade ainda hoje gosto. Nunca havia me interessado por garota nenhuma, nem mesmo curiosidade que todas as minhas amigas tinham de saber como uma garota beija.

Mas eu tinha uma melhor amiga (sempre a melhor amiga) que era bi. E tínhamos um entendimento completamente diferente das outras pessoas, estávamos sempre uma pra outra e ela era linda. E eu notei que o tínhamos era mais que uma amizade. Ela mesmo namorando, deixava o álcool falar ás vezes e dizia que faltava um beijo entre a gente. Eu dizia que não, mesmo a amando preferia não arriscar, deixar tudo na amizade.

Já na maioridade o universo perguntava se eu era ou não. Alguns nem mesmo perguntavam, me rotulavam, na faculdade ninguém pegou mais menina que eu. Mesmo eu nunca tendo nada com ninguém, nem mesmo selinho.

Um dia pelo acaso do destino reencontrei uma colega dos tempos de terceiro ano. Ela era aquela menina por quem todos colocariam a mão no fogo, hoje em dia todos com a mão queimada. E como todo mundo, ela me perguntou “Tu é?”. E eu respondi o mesmo de sempre. Por que mesmo sabendo que eu amava aquela melhor amiga da adolescência, nunca senti mais nada por nenhuma garota, então eu achava que era só ela, que aquela garota era especial. Mesmo dizendo não eu sempre falava que não estava fechada a isso, que poderia um dia acontecer de encontrar uma garota com quem eu quisesse ficar.

E acabei sendo ela, a colega dos tempos de terceiro ano. Eu fui ficando com essa menina na cabeça. Não éramos próximas, também não éramos estranhas. E eu sempre achei ela linda, sempre, a mais bonita da sala. E eu me peguei com ela na cabeça e comecei a puxar uma amizade que antes eu não tinha.

Eu sempre tenho essa dúvida quando gosto de alguém, será mesmo que eu tô gostando desse alguém? E eu corro pros meus amigos e fico conversando horas sobre isso pra tentar entender. Uma voz da razão me disse que o pior que poderia acontecer era eu descobrir que agora gostava de meninas. E era isso, resolvi me jogar nessa historia. Falei para que ela estava interessada, que a queria. E dai a historia foi desenrolado, antes de ficar com ela, fiquei com outra garota, só por test-drive.

Eu descobri que gostava de meninas, mas também gosto de meninos. Eu sou socialmente rotulada de bissexual. A maioria dos gays e lésbicas que conheci depois disso tem o habito de dizer que sou confusa, que não achei ainda. Alguns até me chamaram de covarde, dizem que tenho medo de assumir minha verdadeira sexualidade.

Não é nada disso. Eu gosto mesmo de ambos, não tenho confusão nenhuma na minha cabeça, medo de nada. Não acho isso errado em nenhum sentido. Estou bem segura de mim, de quem sou, do que gosto. E gosto ambos, não sou obrigada por nenhum contrato a escolher um ou outro.

Agora eu já sei, gosto de meninas. Como faz agora para contar isso depois que passei anos tentando convencer a todos, família, amigos, que não gostava delas? Monto um almoço familiar e “Pai, por favor me passa o frango? Então eu agora fico com meninas, ele tá meio seco, tem molho?”.

Então eu parei para pensar, poxa, nunca fez diferença a sexualidade de ninguém pra mim, por que justo a minha ia ser um grande acontecimento? Dane-se, vou agir naturalmente. Sem esconder, sem mentir, porém sem precisar fazer uma parada para anunciar.

“Amiga e ai como foram às férias, pegou muito?” E eu respondia: “ Foi ótimo, nem fiquei tanto assim… Só fulano, fulano e fulana!” E sabe o que foi o melhor? Meus amigos não se espantaram, olharam duas vezes ou nada disso. No máximo perguntavam quem era a fulana e quando eu explicava vinha um “Nossa ela é linda, pegou bem.”.

Com minha família é um pouco diferente. Moro sozinha com meu irmão, ele graças a deus e a criação dos meus pais tem a exatamente o mesmo pensamento que eu, supertranquilo com isso. Meu pai, eu não cheguei para ele avisando, mas ele tem meu facebook adicionado, tem acesso a meu blog. Considero que ele saiba e depois disso, nossa relação continuou a mesma de sempre, já o peguei brigando sério com melhores amigos dele por conta de comentários homofóbicos.

E essa é a minha historia. Acho que nunca sai do armário, afinal, parece que eu nunca estive dentro dele.

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Sobre Desejos e Vontades

outubro 27, 2011 at 2:23 am (aleatorias)

Basta um sorriso certo, um olho profundamente castanho, um papo solto sobre o que eu gosto, um gesto pequeno quase sem importância e pronto. É um encanto. E não dura quase nada. Essa é a diferença entre desejo e vontade.

Vontade é querer, consumir, meio que uma curiosidade, mas quando saciada vai sem mais voltar. Desejo vai mais além, é quase um vicio algo entorpecedor, quanto mais se tem mais se quer, mais se precisa.

Vontades eu tenho muitas, das mais variadas, mas que passam. Quase um capricho. Desejos? Só uma, só dela. Somente dela, de suas sardas, de sua casualidade, do seu riso difícil. Do gosto diferente, das opiniões fortes, do jeito contraditório e meio confuso.

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Sobre compromisso

outubro 11, 2011 at 9:45 am (aleatorias)

De onde vem essa carência excessiva de relacionamentos? Algumas pessoas parecem incapazes de aproveitar a própria companhia seja por medo, insegurança (que pra mim é uma forma de medo também) ou sei lá que razão metafisica possa ser.

E o pior é que esse tipo de pessoa draga outras pessoas para esse circulo. Não basta ter sentimento, é preciso um rótulo, um atestado, um nome, algum tipo de peso semi-palpável para que se sintam bem.

Não basta dizer que a companhia é agradável, que alguém lhe faz bem, que você gosta. É preciso ser namorado, esposa, ter proprietário com firma reconhecida em cartório. E eu simplesmente não consigo compreender.

Por que tudo precisa ser tão sério assim, tão formal, tão pesado. Talvez a culpa seja do mercado de trabalho que se tornou assim tão informal, fez surgir uma necessidade de normas e regras mais rígidas em algum campo da vida. Algo que diga aos outros que você não pode escapar ou se escapar é por que gosta de fazer algo errado.

Talvez seja isso, seja o “prazer culposo”, o gosto, a adrenalina de se comporta mal, de ser o bad boy ou a bad girl ao quebrar algo que você mesmo implantou.

Desculpa vocês que gostam, aproveitam e necessitam disso. Mas eu não consigo. É aquela frase batida e já bem clichê, eu não sou um pote de azeitona para receber rótulo. E se eu não sou uma azeitona, não quero que meus relacionamentos sejam combinados de legumes para serem igualmente rotulados.

Não é que eu não queira me relacionar com ninguém. Não é que eu não queira estar com você, eu só não quero ESTAR COM VOCÊ. Se eu estivesse interessada em cargos e carreiras eu iria fazer concurso público.

Eu gosto de você, do seu jeito de sorrir, do tom diferente que na minha cabeça só a sua voz tem. Gosto do modo como você faz eu me sentir menos assustada, gosto de como aguenta as minhas crises de carência repentinas sem me chamar em voz alta de louca desvairada. Porém eu também gosto da minha independência, de ficar sozinha numa tarde de domingo lendo um livro bobo e ouvindo o tipo música que você não gosta.

Lógico que quando eu estiver com dor eu vou querer teu colo e também quero ser a primeira opção que você procura quando se sentir do mesmo jeito. No entanto eu ainda quero a minha liberdade, ser única e individual e que você (independente de quem quer que venha ocupar o lugar desse pronome até o prezado momento indefinido) se porte da mesma forma.

Eu quero o prazer da existência de dois e não da fusão desestimulante do surgimento de um. Em minha opinião aliança se coloca no dedo dos amigos numa piada sobre relacionamentos eternos. Nessa coisa toda de “estar com alguém” eu gosto do super-clichê de aproveitar a eternidade do momento. Se precisar de um grande gesto romântico, sei lá faz um post-it, eu ainda considero uma citação pop bem maneira.

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